domingo, 2 de abril de 2017

Posada Malibu, Los Roques, Venezuela


Los Roques, o tempo estagnou no maior arquipélago do Caribe.

 


Lentamente, o turbohélice inicia a sua descida em direção ao aeroporto de Gran Roque, única ilha deste arquipélago caribenho que oferece uma infraestrutura turística, um porto e a pista de pouso para as aeronaves de pequeno porte, provenientes da capital venezuelana. Hipnotizados pelo cenário que vislumbram do alto, os passageiros não desgrudam mais os olhos da janela até a aterrissagem. Visto de cima, o contorno das praias forma molduras de areia cintilante e a água é tão límpida que deixa transparecer o tapete de corais. Em algumas baías, dá para discernir veleiros ancorados, e as diferentes tonalidades de azul do mar causam um efeito visual impressionante: as embarcações parecem estar suspensas no ar. 






Apenas 30 minutos de vôo separam Caracas de Los Roques, o maior arquipélago do Caribe e hoje Parque Nacional. No entanto, das 364 pequenas ilhas, só quatro são habitadas e apenas uma delas – Gran Roque – tem alguma infraestrutura. Todas as outras se encontram em estado selvagem.

O aeroporto de Los Roques já é um cartão postal em si

Assim que desembarcam no vilarejo de Gran Roque, os turistas se dirigem à entrada do Parque Nacional através de um guichê estrategicamente fincado na beira da pista de pouso. Ali pagam uma taxa, e só depois recolhem a bagagem. Em seguida, levando as próprias malas, vão se dispersando aos poucos, em busca de suas respectivas pousadas. A pé, pelas ruas de areia, como fazem os 2500 habitantes deste minúsculo perímetro urbano onde não existe automóvel e nem poluição. Os roquenhos dependem inteiramente do turismo como fonte de renda, assim como dependem do continente para suprir qualquer gênero de abastecimento – exceção feita à pesca. Aliás, uma iguaria local renomada é a lagosta, servida em diversos estabelecimentos, seja sob a forma de recheio numa empanada  (uma espécie de pastel) ou para incrementar um tagliatelle.
 
Pescador alimenta os pelicanos mais acomodados


Ao longo dos últimos anos, nativos e estrangeiros oriundos de vários cantos do mundo abriram pousadas, bares, restaurantes e lojinhas de artesanato, criando aos poucos uma estrutura turística - terrestre e náutica -  razoavelmente eficiente para atender à demanda crescente por melhores serviços. Em Gran Roque (e só lá mesmo, porque nas outras ilhas habitadas não há sequer uma padaria!), já é possível encontrar internet café,  agencia de correio, farmácia, posto de saúde,  banco e uma escola. Até algum tempo atrás, a cada vez que um avião tocava o solo, as crianças abandonavam suas carteiras e corriam até a pista, a fim de oferecer aos recém-chegados seus préstimos como carregadores. Hoje, esta prática é proibida.


Gran Roque acolhe todos os turistas provenientes de Caracas. Ali,  não existem carros e as ruas são de areia. Mas é só lá que ficam as pousadas, os restaurantes e algumas lojinhas de artesanato.

Em Los Roques
, a coisa mais natural (e quase automática) é perder a noção do tempo e deixar que as horas sejam diluídas ao sabor do vento, imitando assim o modo de vida dos milhares de pelicanos que passam o dia alternando mergulhos, contemplação e repouso. E assim como o arquipélago é um santuário para estas pacatas aves, o mesmo acontece com os turistas que vêm passar suas férias. Imbuídos pelo estado de espírito roquenho – um sintoma contagiante, vale acrescentar! -  aderem a uma rotina que é quase sempre a mesma para todos: se hospedam em alguma “posada”, se contentam com acomodações rústicas sem grandes confortos além de banheiro privativo e (às vezes) ar condicionado, e zarpam diariamente depois do café da manhã para uma praia, onde passam o dia inteiro. A maioria das posadas ( se escreve com "o" mesmo) providencia uma cesta de piquenique com bebidas e transporte em lancha própria, além de cadeiras de praia e barraca. No final da tarde, trazem os turistas de volta a Gran Roque.



À noite, o programa é perambular pelo vilarejo, tomando um mojito aqui e um petisco ali, e depois jantar em algum dos inúmeros restaurantes. Há desde japonês a italiano, passando por pizzaria a simples biroscas. O ambiente do vilarejo é despretensioso, o clima agradável, não existe “dress code” e todos andam à vontade. Muita gente anda até descalços. A praça  principal, a Bolivar, fica cheia de gente, e dependendo da estação do ano, reina uma atmosfera festiva e animada em bares. Porém, quem está atrás de vida noturna abundante ou boas compras não vai encontrar. A Posada Malibu, que é um pouco afastada do centrinho,  tem uma simpática decoração na laje com um charmoso varandão desnivelado estilo lounge, enfeitado com espreguiçadeiras. Os quartos são pequenos, confortáveis, e têm banheiro privativo. Só a localização, digamos, não é tão privilegiada, mas ninguém se queixa em Los Roques - todo o cenário é tão extraordinário que o resto é o resto...

Cayo Agua, um retalho do paraíso

Lounge na Posada Malibu: bom gosto na rusticidade e aconchego genuino


O mesmo vale pra quem está idealizando um hotel de luxo: em Gran Roque cabe charme, bossa, criatividade, boa vontade. Los Roques é o destino ideal para uma viagem romântica, só para ficar jiboiando sob o sol do Caribe. Mas, graças à brisa constante e mar  manso, é também muito atraente para quem gosta de praticar atividades esportivas como kite surfe, windsurfe, caiaque e mergulho, cujo equipamento pode ser alugado em algumas das praias mais frequentadas ou nas lojas especializadas do vilarejo.

Segundo uma carta de navegação local, seriam necessários 16 dias para percorrer todo o rosário de ilhas, ilhotas, bancos de areia, “motus”  e cayos – a palavra exata para definir estes ancoradouros paradisíacos e as praias desertas.     Mas, como a maioria dos visitantes não dispõe de tanto tempo, há um certo consenso sobre  quais são os lugares mais exuberantes a serem visitados. E assim, a programação turística “oficial” de Los Roques inclui sempre as ilhas cuja localização é mais próxima de Gran Roque, como Crasqui, Espenqui e Francisqui. Uma corrida de táxi-boat para qualquer uma destas praias, leva cerca de meia hora. Uma curiosidade local é o nome de muitas das 350 ilhas do arquipélago, que sempre acaba com “qui”. Na verdade, é uma adaptação da palavra inglesa “key”, que significa ilha.

Cayo Tres Palmeras
Mas há quem queira fugir do típico roteiro para explorar um pouco mais este arquipélago. A melhor opção é alugar um veleiro ou um catamarã, por um ou mais dias, pernoitando a bordo se for o caso, e usufruindo de total liberdade para ir e vir de qualquer ponto, esticando as distancias ao bel-prazer. Outra grande vantagem deste meio de transporte é a mordomia, pois o charter incluiu um capitão e uma hostess, que, respectivamente, cuidam da navegação e das refeições. Detalhe: este programa não é tão oneroso quanto aparenta ser, e é ideal para uma família ou um grupo de amigos que queiram total privacidade.  Além de se libertar das amarras com Gran Roque, é uma fórmula para evitar a presença de qualquer outro grupo de turistas, pois o objetivo é ancorar em locais bem afastados e ainda mais selvagens e desertos, como Cayo de Água.

  • Lugares de extrema beleza selvagem, com praias inteiramente desertas de areia fina e leitosa. O mar transparente, de diversas tonalidades, é manso e morno.

 Localizado ao extremo oeste de Los Roques, é formado por várias faixas de praia cuja areia chega a ser leitosa de tão fina. Só poucas embarcações chegam até lá, porque é longe. A topografia é formada por pequenas elevações e a ilha tem um farol isolado no topo de uma colina. Vale o passeio até lá, mas é preciso muito cuidado com os carrapichos nos trechos onde há vegetação rasteira, pois são invisíveis e quando espetam a sensação é dolorosa e impede qualquer tentativa de caminhar descalços.

Velejando assim livremente, além de lugares selvagens, também é provável encontrar personagens tão característicos como Polito, um pescador local bem famoso que mora como a família num “rancho” (barraco de pescador) de frente para uma praia deserta que – mais outra! - também não consta do mapa, mas fica próximo a um santuário de pelicanos. O ar de bonachão, o traje curioso ( ele usa um boné cheio de penas) o tornou conhecido.





O pescador Polito (foto ao lado) é um dos pescadores mais reputados de Los Roques.  Na cabeça, um boné com penas sobressaindo o transforma num personagem. A lagosta do seu restaurante é famosa. 


 Este roquenho, que sobrevive da pesca e com um modesto restaurante cujo pátio é arenoso onde são servidos almoço e jantar todos os dias do ano, fala pouco. E  é claro que a clientela, pelo menos a que fica atenta às dicas que sopram na região, vai encomendar um daqueles pratos de lagostas grelhadas, especialidade da casa. Com um pouco de negociação, ele cobra em dólar (ou euro) cerca de U$35 por pessoa, com direito ainda a ostras e um tipo de marisco local chamado botuto. Mas, fato curioso, Polito se declara avesso a multidões. No caso, isto não deveria ser seu motivo de preocupação: a palavra multidão não consta no vocabulário de Los Roques.






















quinta-feira, 30 de março de 2017

Pousada Solar d´ Araucária, Gonçalves, Minas Gerais, Brasil

 
Gonçalves, terra das cachoeiras, tão bucólico como esta ilustração de um artista local

Até bem pouco tempo atrás, eu nunca tinha ouvido falar de Gonçalves, um discreto município de 4 mil habitantes, emoldurado pela serra da Mantiqueira e esplêndidas paisagens típicas do sul de Minas Gerais. Devido à sua proximidade com São Paulo, foi perfeitamente viável passar um delicioso final de semana a 2100 metros de altitude, embalada pelo cenário mesclado de cachoeiras, araucárias, colinas, morros e bosques, sempre alinhavados por estradas de terra sinuosas. Infinitamente mais recatado do que seus célebres vizinhos  - Campos de Jordão e Monte Verde -  a cidadezinha,  que é a porta de entrada do sul do estado,  é uma micro região, com personalidade própria e enraizada em suas tradições. 

Cartão postal da região de Gonçalves

Na intenção de acalentar tradições antigas, o povo de Gonçalves conserva alguns hábitos bem pitorescos, como transportar algumas de suas mercadorias agrícolas em carros de boi pelas ruas da cidade, ou ainda se locomover no lombo de cavalos, cujas ferraduras estalam nos paralelepípedos. Muitas das raízes culturais e expressões artísticas preservaram a sua autenticidade, e isso pode ser apreciado durante um dos eventos locais mais representativos, que é o Festival de Inverno, e que será realizado em julho. 

Piscina da pousada com vista indevassável sobre colinas e muito verde


Nos hospedamos na Pousada Solar d´Araucária, em um dos catorze chalés espalhados pelo enorme terreno, todos construídos de maneira diferente, podendo acomodar de casal a família com crianças. De alguns, a vista é para a mata, de outros o hóspede está a poucos passos da cachoeirinha particular da pousada. A decoração é rústica, mas a lareira e a banheira de hidromassagem dão um  toque romântico ao ambiente dos quartos e dos banheiros, a maioria integrada.  No restaurante, o destaque é  o café da manhã, servido no melhor estilo mineiro, com muita variedade de pães, pão de queijo, bolos e produtos caseiros. 

Quedas d´água potentes e poderosas





O que não falta em Gonçalves são cachoeiras.  As mais conhecidas e visitadas são as dos Henriques,  a 9 quilômetros  da zona urbana,  com piscina natural, muito convidativa para banhos;  a do Simão, no bairro dos Venâncios, a cerca de 3 kms da cidade;   a São Sebastião, mais longínqua, cujo acesso se dá através de uma trilha, em 40 minutos;  e  as cachoeiras  Sete Quedas e do Retiro, ambas no bairro do Retiro, que podem ser alcançadas facilmente, pois se encontram a 1,5 km  da cidade. São todas acolhedoras, mas sempre redobre o cuidado na parte de cima, pois a inclinação das quedas é acentuada.

muitas cachoeiras pra admirar ou desafiar

E falando em clima,  a meteorologia  é justamente um dos fatores que encanta os turistas  em várias épocas do ano. Nessa altitude subtropical, raramente o calor passa dos 32 graus, mesmo em pleno verão, mas em contrapartida a temperatura pode despencar até menos 7ºC  entre junho e agosto, atraindo quem gosta de contemplar a natureza transformada pelo frio intenso. Na temporada de inverno, o turismo de aventura e rural proliferam, e inúmeras atividades ao ar livre são praticadas por esportistas, como mountain bike, trekking, passeios a cavalo e excursões em 4x4. E mesmo um só dígito no termômetro não espanta quem é adepto de programas  aquáticos,  como  cascading ou  boia cross ( em que você senta numa boia e se deixa levar pela correnteza do rio), e outras brincadeiras  que podem ser realizadas graças ao grande número de cachoeiras espalhado pela redondeza, a maioria de fácil alcance.

cena urbana
O vilarejo de Gonçalves


E mesmo durante um final de semana chuvoso, encontra-se o que fazer em Gonçalves. No centrinho, tem pequenas lojinhas de artesanato com criações próprias, um farto leque de  restaurantes charmosos com boa gastronomia - de trutas à típica comida mineira -  e uma atmosfera envolvente, muito hospitaleira. A feira de produtos orgânicos, aos sábados, é legendária. Encontra-se de mel a cachaça, marcos de Gonçalves. Fora geleias, doces, legumes, verduras e frutas cultivadas nos sítios dos "bairros" (micro comunidades) próximos. E, convenhamos, nada mais gostoso e romântico, depois de um dia cheio de atividades e tendo se deliciado com as paisagens bucólicas, relaxar no conforto de seu chalé, diante de uma lareira,  com uma taça de vinho na mão.

O generoso café da manhã da Pousada Solar d Àraucária

terça-feira, 28 de março de 2017

NH Geneva Airport, Genebra, Suíça

Não parece, mas é um carro...

Você certamente já teve que pegar um vôo cedo na sua vida. Daqueles que saem antes mesmo das galinhas acordarem. Como fazer pra otimizar a terrível maratona de fazer um check- in ainda na escuridão, passar uma noite quase insone e ficar na nóia de ter esquecido alguma coisa de última hora?

Resposta sensata: durma num hotel de aeroporto. Dependendo qual deles e em que país, isto pode ser uma experiência razoável até. Boa, boa, vai ser difícil, mas vamos lá, tem alguns quesitos que você precisa levar em consideração: a primeira delas é que o hotel precisa oferecer um transporte de cortesia pra levar os sonâmbulos até a porta de entrada do terminal e despejá-los com bagagem e tudo o mais próximo possível ao portão de embarque. Leve sempre em conta que seu aeroporto pode ter vários terminais e às vezes ficam tão distantes uns dos outros que mais vale saltar no terminal correto (isto vale pra o aeroporto de Heathrow, por exemplo).
A outra coisa é levar em conta que os hotéis de aeroporto não acolhem pessoas cuja intenção é passar mais de uma noite ( pelo menos não teria muita lógica, até porque estes hotéis estrategicamente localizados próximos ao aeroporto não custam bagatela, não...)

NH: a apenas 7 minutos do aeroporto, sem barulho de avião...
Ainda mais na Suíça. Mas, pelo menos o NH Geneva Airport é bem razoável e o atendimento bem simpático ( você não se sente apenas como um mero caixeiro viajante de passagem). O restaurante é atraente e os quartos amplos, se comparados com o casulo em que já fiquei dentro ( literalmente) do aeroporto de Gatwick onde sequer tinha janela...Foi um pesadelo adormecer - me senti como dentro de um caixão!!!! Ah, o nome deste hotel é o Bloc - a evitar, principalmente  pra quem é claustrofóbico!
Protótipos: ficção ou futuro?

Outro quesito importante pra quem vai dormir perto da pista de decolagem e aterrissagem: há fortes chances de você ouvir barulho de avião. Uma vez, em Munique, passei a noite sonhando que já tinha embarcado, pois o as decolagens não paravam...Óbvio? Nem tanto. Pois, é possível não ouvir turbina alguma e ainda estar a 4-5 minutos de distancia do seu check-in. Estude sempre a situação do hotel...E se possível, peça um quarto mais privilegiado...
E,  pesquise se dá pra fazer algum programa aprazível nas proximidades do hotel. Em Genebra, por exemplo, dá pra pegar um trem na estação do aeroporto (lembre que o traslado é de graça do hotel até o terminal) e passear na cidade, ir ao cinema, jantar, enfim, curtir a cidade. Depois é só fazer o sentido inverso, lembrando sempre que na Suíça o povo adormece por volta das 10...
Ou, já ouviu falar do Palexpo? Pois é, lá acontece sempre alguma coisa. No caso, fui parar no Salão do Automóvel. Tá, pra quem gosta de carro, é um evento imperdível e se encaixa como uma luva no caso de você ter vindo pernoitar num hotel de aeroporto, pois você vai andando do aeroporto pro local onde acontece um dos eventos mais significativo da cidade. Há 87 anos, diga-se de passagem.
E, é lá que você vai passear por horas, apreciando as últimas novidades ( e loucuras) das companhias de automóveis, que se empenham a cada ano em inovar ( mesmo que algumas novidades parecem maluquices) os belíssimos espécimes de quatro rodas. Ou de três...








Mesmo pra quem não entende nada de automóvel acaba se entusiasmando com tantos modelitos reluzentes, mega coloridos, marcas e mais marcas de todos os tipos - de esportivos ao luxo extremo, clássicos... Os saudosistas vão se derreter com os Jaguar antigos, as Ferraris da década de 60, o mini cooper  de antão que mais parece um brinquedo, o Porsche de linhas discretas que rodava nos anos 70... Enfim, tudo contrasta com carros que sequer precisam de combustível - os futuristas elétricos - ou de motorista - viram drone quando você está preso num engarrafamento. Já pensou? Se aborreceu no congestionamento? Aperta um botão que o seu fon-fon levanta vôo e você , lá de cima, só precisa dar um tchauzinho pra quem ficou dando uma de bobo esperando desatar o nó...

Pra fugir dos engarrafamentos: levante vôo num carro-drone, que tal??

sábado, 25 de março de 2017

Chateau Eza, Èze, França

Vista panorâmica de Eza, um vilarejo aninhado no alto de uma colina. Chàteau Eza fica no topo.
Eza se debruça sobre o horizonte e o mar

Sabe aquele vilarejo que você vê lá de baixo, empoleirado no alto de uma colina? Daqueles que parecem ilustração de um conto de fadas? Daqueles que quando você olha de longe acha que é de mentirinha, uma maquete, e quando chega bem perto tem certeza de que entrou de corpo e alma dentro de um cenário lúdico...eu fico encantada com estes pequenos achados, autênticos nichos medievais, onde o tempo passou batido ou nem parou pra passar, e tudo cheira a antiguinho.
E´ isso aí em Èze. Ou Eza, como também é conhecido.

A vista é de tirar o fôlego: toda a baía da Côte d´Azur aos seus pés enquanto você degusta um daqueles pratos mediterrâneos à base de peixe, camarão e lagosta, regado a um bom vinho regional. Por incrível que pareça, o vilarejo ( onde não entra carro), está a apenas 8 quilômetros de distância de Mônaco e 12 de Nice.

Vista de uma das suítes do Château Eza





Ou seja, vale uma escapada para almoçar, perambular sem rumo pelas estreitas ruelas medievais, garimpando lembrancinhas da Provence pelo caminho ( leia-se sabonetes, bonecos de pano, toalhas de mesa com lindas estampas...) e apreciar a paisagem. Entretanto, quem quiser realmente aproveitar a ocasião para celebrar alguma data, anote: apesar do seu tamanho, Èze oferece hospedagem de alto luxo com estabelecimentos de primeira categoria. 
Dá para comemorar em grande estilo no Château Eza,  também conhecido como o Castelo do Príncipe da Suécia que era o antigo dono deste hotel-restaurante, cuja construção data do século XV e tem 10 suntuosas suítes que se debruçam sobre o mar cristalino a mais de 1000 metros de altura. O serviço é “real” - e as diárias, diga-se de passagem, também- mas uma estadia lá vale cada tostão. Detalhe: as suas bagagens são trazidas por um burrico. Pudera: como você deve ter imaginado, lá não tem carro. O estacionamento fica no pé da montanha e de lá é preciso galgar escadarias, ladeiras, pequenos becos, ruelas sem saída, passando por um montão de casinhas, prédios residenciais, restaurantes, lojinhas...até chegar no topo.



Três tipos de crème brûlée, que é pra você descer rolando...

 Mas, mesmo sem fôlego, tem-se duas recompensas: a vista deslumbrante e a comida fabulosa servida no restaurante do Château Eza. Lembrete: reservas feitas com bastante antecedência, principalmente se a sua intenção é agendar pra junho ou julho,  e implore pra sentar numa mesa do terraço, imperdível, porque você vai se deleitar com tudo de uma vez só: a gastronomia e o cenário.


Imponente de todos os ângulos, Èze é um destino em si.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Ponta dos Ganchos Exclusive Resort, Governador Celso Ramos, Florianópolis


Pescador na rotina do dia-a-dia e suas redes

O próprio nome Ponta dos Ganchos derrete na boca assim como as meras 24 horas escorregam dia adentro, insuficientes para que se possa desfrutar de tudo que este resort tem a oferecer. Bem escondidinho num vilarejo de pescadores chamado Ganchos, a pouco mais de 70 quilômetros da capital Florianópolis,  ostenta o rótulo de Virtuoso, uma grife que alia o luxo supremo com um serviço irrepreensível. Ou seja, o resort é um destino em si. 

Além de ser uma experiencia pra lá de relaxante, você é mimado desde o instante em que pisa naquele cenário lúdico, ornamentado por luxuosos bangalôs onde você vai ficar embevecido com...adivinhe, se puder...depois eu conto, tintim por tintim.





Como faço todos os anos, me escondo em certas datas. E pra isso preciso achar um esconderijo perfeito. Especial. Único. E nos Ganchos, fomos realmente tratados como celebridades. Um nicho de perfeições. 


Prainha particular


Este esconderijo tem tudo: a nossa suíte tinha uma vista que se debruçava sobre o mar, onde dava pra observar o dia-a-dia dos pescadores e suas redes coloridas. Estávamos acomodados em aproximadamente 80 metros quadrados, onde desfrutamos de uma sauna particular, uma jacuzzi, dois chuveiros, dois banheiros, uma cama mega king size, uma piscina de fundo infinito ( para aquecê-la,  basta apertar um botão), um terraço com  espreguiçadeiras e amenidades l´Occitanne por todos os lados. Além disso, tínhamos roupões felpudos, dezenas de toalhas, uma máquina Nespresso, um mini bar aberto para bebidas sem álcool e petiscos, uma lareira ((lembrando que em Santa Catarina as temperaturas podem se tornar alpinas) estrategicamente instalada diante de uma mega televisão de tela plana...



Sem contar com a garrafa de Imperial Brut que deixaram num balde de gelo como cortesia.
A comida é maravilhosa, e sempre tem um chef famoso que se responsabiliza pelo cardápio , que muda conforme as estações. Ou seja, come-se muito bem, com variedade e opções criativas. Nas datas especiais, como Páscoa, eles preparam surpresas gastronômicas e eventos como música ao vivo.
Passear em volta do resort, isso era também um programa, porque você pode simplesmente caminhar ou então solicitar um carrinho de golfe pra vir buscar você na sua suíte. Digamos que você não é preguiçoso, mas caiu o maior toró – temporal de verão! – que pegou todo mundo de surpresa. E aí, você apela pro carrinho de golfe.




Pode também estar na praia particular gostosinha que fica a poucos passos do seu bangalô, vai que começa a chover ( acontece mesmo, principalmente depois do almoço...) e aí você não quer se molhar.
Spa entre a natureza


Você concluiu bem: mesmo se chover, o Ponta dos Ganchos não é um hotel em que o tédio te pegue desprevenido. Também não mata ficar ‘preso” na suíte. Esqueci de mencionar que tem um Spa Dior para revigorar espírito e corpo a qualquer momento. Massagens, tratamentos...Ai, chega uma hora em que você até se cansa de se sentir como uma celebridade! 




segunda-feira, 20 de março de 2017

Hotel Arathena, San Pantaleo, Sardenha, Italia

 
O interior da Sardenha revela paisagens totalmente diversas aos do litoral, e é bem menos explorado


 Para conhecer a verdadeira alma da Sardenha, alugamos um carro e percorremos as províncias de Nuoro, Alghero, Oristano e Sassari,  seguindo um itinerário calcado no agriturismo, uma modalidade de hospedagem que propicia  o contato direto com o povo da terra, suas raízes e tradições. Na Itália,  esta fórmula tem crescido significadamente, pois é uma forma dos proprietários rurais  acrescentarem um dinheiro extra aos seus rendimentos. Sendo assim,  disponibilizam alguns quartos (ou até construíram  chalés em sua propriedade), servem o café da manhã  e alguns incluem até o  jantar nas diárias. A idéia original era acomodar  turistas de passagem. Hoje, já mudou bastante, tem gente que fica dias a fio curtindo o ambiente familiar e a vida da fazenda, que continua seu trabalho rotineiro. 
cena de estrada : é preciso paciência


 Através deste sistema, os agricultores mantém seus negócios e ao mesmo tempo você tem a oportunidade de sentir a verdadeira hospitalidade sarda. Personagens e figuras locais fazem parte da rotina de uma viagem que revela dia após dia muitas características e facetas da cultura e da história destes habitantes, em sua maioria desconhecidas.   

Um carro maleável é o meio de transporte ideal para percorrer a ilha, servida apenas por uma rodovia principal, a D131, e múltiplas estradinhas tortuosas e entrelaçadas, cujas pistas costumam ser esguias. Existe um mar de itinerários serpenteando entre montanhas e em meio a vales verdes, e esporadicamente à beira do Mediterrâneo. São centenas de curvas ornamentadas por falésias, lagos, precipícios, cenas da vida rural e outras paisagens espetaculares, como o labirinto de formações rochosas do Valle della Luna, próximas a Aggius.  Este vilarejo tradicional, situado na Gallura, tem casarios antigos de pedra, cuidadosamente restaurados. 

O agriturismo, que significa se hospedar em “mini-hoteis” , ou pequenas fazendas, foi uma forma dos proprietários rurais acrescentarem um dinheiro extra aos seus rendimentos. Sendo assim, disponibilizam alguns quartos ou chalés em sua propriedade – que continua funcionando produtivamente -  por diárias módicas ( em média, paga-se 70 a 80 euros por pernoite, alguns incluindo o  jantar e sempre o café da manhã) e acomodam turistas que, em geral, só pernoitam. Através deste sistema, os agricultores mantém seus negócios e ao mesmo tempo propiciam aos hóspedes a verdadeira hospitalidade sarda. Personagens e figuras locais fazem parte da rotina de uma viagem que revela dia após dia muitas características e facetas da cultura e da história destes habitantes, em sua maioria desconhecidas.   






Me lembrei muito desta pousada Arathena, quase cor de rosa, construída meio em labirinto, escadas pra tudo quando é lado, mas quando chegamos na nossa suíte - que surpresa! era grande, arejada, acolhedora. Se hospedar em agriturismo é meio loteria, revela surpresas, boas e decepcionantes, mas isso faz parte. O recomendável é montar seu roteiro baseado também nas categorias de hospedagem que você está querendo. Tem pousada de todo tipo, daquela bem basiquinha até a mega estrelada. 
O charme incrível do vilarejo de San Pantaleo



A cada dia, a paisagem ao longo do caminho, além de exuberante, é mutante. Basta atravessar algumas montanhas e vales em direção ao oeste e chega-se ao Golfo dell´Asinara. Castelsardo, na província de Sassari, é uma cidade que data de 1102 e  que se espalha pela encosta de uma formação vulcanica. Lá no topo se ergue um castello medieval, de onde se tem uma vista indevassável sobre o mar. No interior das muralhas, as atrações são as vielas estreitas e butiques de artesanato local. 










A costa oeste desvenda praias extensas de areia branca, como Valledoria, onde kitesurfistas aproveitam o vento forte para fazer piruetas numa lagoa junto ao mar. 

Ruelas estreitas ocultam trattorias perfeitas

Mas, em todo o interior da Sardenha, onde melhor se come é mesmo nas pequenas trattorias , longe das praças principais e de preferência com a presença do dono.  Para saber se acertou na escolha, certifique-se que o número de clientes locais ultrapassa o dos “forasteiros”. O recinto sempre tem um ar de família, o preço é baixo e a comida genuinamente suculenta. Também é preciso levar em conta os horários das refeições. O almoço vai de uma às 3, e enquanto isso o comércio fecha as portas. Não se encontra nem mesmo uma gelatteria aberta neste intervalo. O jantar vai de 8 às 10, no máximo. Lembre-se que nesta parte da ilha não há quase vida noturna...e na manhã seguinte, é preciso acordar cedo para prosseguir viagem, aproveitar o dia e descobrir praias banhadas pelo translúcido Mediterrâneo. Um convite ao mergulho, relaxamento e banho de sol.


 
As spiaggias (praias) próximas a Putzu Idu, um minúsculo balneário composto de algumas modestas casinhas, do Capo Mannu e do Golfo de Oristano, como a de Mari Ermi  e Lu Bardoni, são mesmo  de areia branca ! E desertas, ainda por cima, mesmo na alta estação. O que é um milagre, considerando que a Sardenha atrai uma legião de turistas só por causa de suas praias.  
Praia de Mari Ermi, deserta e mágica

Areia fria, fofa e complicada de se caminhar encima


Um detalhe interessante, é que na realidade estas praias não são de areia fina como as brasileiras, mas sim forradas com microscópicas pedrinhas brancas que afundam com o peso do corpo. Por baixo, há umidade. O contato chega a ser agradável, pois elas não grudam na pele e não esquentam sob o sol de 35 graus. Mas, torna impossível qualquer caminhada, pois a sensação é como pisar encima de cereal. A água do mar, entretanto, é transparente e tranquila quando não venta, mas é fria.

Fantásticas formações rochosas no Vale da Lua

Paisagem campestre 

Auguri! ( Salve!) Esta saudação estará sempre presente no vocabulário do povo do interior da Sardenha. Todo mundo é muito gentil e prestativo, e não são poucos que chegam a sair do seu caminho para orientar e dar informações. Considerando que o dialeto local é bastante ininteligível (mesmo para quem tem boa noção de italiano) as pessoas fazem um esforço para se comunicar em inglês e em último caso, usam até mímica.  Mas uma coisa é certa: um sorriso sardo estará invariavelmente estampado.